Perfeição: ideal dos tolos

Estamos condenados a não cometer erros. Somos condenados ao cometê-los. No amor, somos submetidos ao regime da performance. Amamos a ideia do amor perfeito. Maltratamos o amor real. Estranho tudo isso! Não aprendemos ou, se aprendemos, estamos esquecendo que amar é aceitar as fraquezas dos outros e as nossas próprias. Não estamos mais aprendendo a se sensibilizar perante o outro, a esse outro de carne e osso. Não nos conectamos mais em olhares, em toques, em abraços, em companhias. Somos escravos de um ideal frio e mascarado.

Queremos ser felizes o tempo todo: uma sociedade incansável por esta busca da felicidade. Não aceitamos que não somos. E isso causa desespero e angústia. Assistimos pessoas felizes em linhas do tempo na mais perfeita harmonia. Não aceitamos não ser assim. Com isso, queremos apressar tudo. A relação perfeita que precisa ser agora, o sexo perfeito que precisa ser sempre, o amor perfeito todos os dias. Submetemos nosso amor ao imperativo do absoluto, um deus implacável. É uma pressão que chega a ser desumano.

O resultado disso tudo é um vazio que queremos preencher a qualquer custo. Pagamos um preço alto para parecer o que não somos. Triste realidade! A vida perfeita que queremos mostrar é uma ilusão cara demais para celebrá-la o tempo todo. Os roteiros que vivemos, os personagens, não duram mais que uma peça. Se eu não gosto, substituo rapidamente. Queremos que a pressa seja, o tempo todo, amiga da perfeição. Só que na vida real, para uma peça ser boa, é preciso dedicar tempo e acolher a paciência.

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Mas em tempos líquidos, que sãos os nossos, queremos viver de acessos. Não quero mais navegar pela linha do tempo, por muito tempo, de uma só pessoa. Não quero mais escutar por muito tempo que logo acesso outra fala. Se o acesso é muito fácil, desconectar-se é mais fácil ainda. Fecho uma porta porque consigo entrar por várias janelas. Não temos mais certezas do que esperar, desta forma, vamos escolhendo acessos fragmentados de falsas alegrias.

É importante aceitar que a felicidade é feita de instantes que nos acontecem. Não é algo que provocamos, pois se assim fosse, seríamos felizes o tempo todo, pois só bastaria provocá-los. E quem não deseja isso? É importante aceitar que falhamos, que a perfeição é um ideal dos tolos. É importante aceitar que somos seres imperfeitos e que isso é fundamental para nos livrarmos da pressão do olhar do outro. É importante aprender a lidar com nossa inquietação, só assim podemos ir além das nossas crenças. É importante aceitar que não podemos fabricar nossa felicidade a partir de coisa alguma, mas, mais importante ainda, saber se afastar da infelicidade quando a percebemos por perto.

Por Valdimar Sousa

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Um comentário sobre “Perfeição: ideal dos tolos

  1. Liara Morgana Neumann disse:

    Tem uma frase da Fernanda Nêute que eu gosto muito, ela diz: “O problema é que na nossa sociedade atual, obcecada pela felicidade, todo mundo quer o ganho sem a dor, o resultado sem o processo e a recompensa sem o risco”
    Vivemos de urgências, sempre olhando para o vizinho, uma competição louca e desenfreada. Não sabemos aproveitar o agora.
    Muito bom seu texto!

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